Desde que era criança, eu me lembro de ver catadores nas ruas de Uberaba, que batiam de porta em porta, perguntando se havia garrafas, vidros para vender. Era uma cena comum: ver um catador, às vezes, com família inteira ou apenas com os filhos, em uma carroça. E o tempo foi passando e novos catadores foram chegando e agora perguntando se haviam jornais velhos, papelão ou latinhas e agora já não perguntavam se havia para vender e sim para doar. E, assim, os "tempos modernos" chegaram e, com eles, vieram também as novidades, os supérfluos. E o consumo? Foi só foi aumentando. E, consequentemente, aumentando o consumo aumenta também a produção de resíduos, que nem sempre é lixo.
  Temos histórias e histórias de catadores. Há pouco tempo, tivemos dois casos de catadoras, que se transformaram em modelo aqui no Brasil e outra Top Model, na Argentina.
Em 2006, coordenei um grupo de estagiários e realizamos um trabalho de cadastramento de catadores em nossa cidade. Foram 3 meses de trabalho, realizado durante o dia e à noite. Constatamos que há vários grupos de catadores que se revezam nesse trabalho. Assim, conhecemos as histórias de muitos catadores.
  Foi nessa época também que conheci, por meio de um livro, uma catadora que representa milhões de catadores de nosso país: Carolina Maria de Jesus. No seu livro Quarto de Despejo que é o diário de Carolina, uma catadora de papéis semi-analfabeta, negra, pobre e favelada. É, também, autora, personagem e narradora do livro. Ela representa a voz dos excluídos e marginalizados por questões sociais e étnicas. É um diário autobiográfico e um documento sobre a vida de uma favela. São reflexões sensíveis e críticas. Todo o texto é como se fosse um espelho através do qual a  autora olha a si mesma e, também, as pessoas que dividem com ela o seu espaço. É um diário diferente dos outros que são confidenciais. A autora procura denunciar as condições miseráveis de vida em uma favela.
   O diário registra fatos importantes da vida social e política do Brasil, iniciando-se em 1955 e terminando em janeiro de 1960. Mas, vou deixar para falar de Carolina em outro espaço.
   Em setembro de 2008, tivemos o privilégio de participar do 7º Festival Lixo e Cidadania, realizado em Belo Horizonte. O evento teve participação de vários catadores e representantes de Associações e Cooperativas do Brasil e de alguns convidados internacionais.
Na ocasião estiveram presentes, o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, Ministros,Deputados Federais, Estaduais, Prefeitos, Secretário Estadual do Meio Ambiente, Secretário Municipal do Meio Ambiente de Uberaba, entre outras autoridades. A partir desse encontro, Catador de Materais Recicláveis, passa a se tornar uma profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho, assim como o direito a aposentadoria dessa classe. Fatos marcantes e memoráveis para os catadores. Uma conquista a mais para a categoria.